Quem pode dizer que você é.
“Não me chamem de Noemi, mas de Mara, porque o Todo-Poderoso me deu muita amargura.” – Rute 1:20
Você já reparou como nós temos facilidade para transformar acontecimentos em definições? Isso acontece tanto em nosso julgamento a respeito de outras pessoas quanto na forma como enxergamos a nós mesmos. Basta você encontrar uma pessoa distraída no elevador, absorta em seus próprios pensamentos, que não te cumprimentou e você já a define como ‘mal-educada’; alguma coisa dá errado em sua vida e você pensa: “comigo é sempre assim”; uma amizade se desfaz e logo concluímos: “acho que as pessoas não gostam muito de mim”. Aos poucos, aquilo que aconteceu deixa de ser apenas uma experiência e passa a explicar quem somos.
Foi isso que aconteceu com Noemi. Depois de perder o marido e os dois filhos em Moabe, ela voltou para Belém profundamente ferida. Sua dor era real e a Bíblia não tenta diminuí-la. No entanto, ao chegar à cidade, Noemi pediu que não a chamassem mais pelo seu nome, que significa “agradável”. Daqui pra frente, ela queria ser chamada de Mara: “amarga”.
Veja: o problema não era reconhecer sua tristeza. Noemi, de fato, tinha muitos motivos para chorar. O problema é que sua dor passou a determinar a maneira como enxergava a si mesma – e o pior: todo seu sofrimento definia a forma como ela enxergava até mesmo o próprio Deus. Ela conhecia a soberania do SENHOR e, de certa forma, até se submetia à soberania de Deus. Acontece que ela interpretava o governo do SENHOR sobre a história apenas a partir das suas perdas. Assim, ela olhava para sua vida e dizia: “o SENHOR me fez voltar vazia” (vs. 21). Mas será que Noemi estava realmente vazia?
O texto bíblico nos mostra que, na verdade, ela voltou acompanhada por Rute, sua nora, que havia deixado sua terra e assumido um compromisso de amor leal com ela. Além disso, elas chegaram a Belém justamente no início da colheita da cevada. Noemi ainda não conseguia perceber, mas o cuidado de Deus já a acompanhava em meio à dor.
O sofrimento é algo sempre tão marcante para nós que corremos o risco de também fazermos algo parecido. Esperamos tanto por uma resposta, uma solução ou pela restauração daquilo que perdemos que deixamos de perceber as expressões da graça que já estão ao nosso redor. Reconhecer esse cuidado não significa dizer que está tudo bem. Rute não substituía o marido e os filhos de Noemi. Mas aquelas ausências também não tornavam insignificante a presença daquela que permaneceu.
O capítulo 2 de Rute começa nos contando que havia um homem chamado Boaz. Noemi ainda não sabia o que iria acontecer em sua história, mas Deus já estava agindo além daquilo que ela mesma conseguia enxergar.
Por isso, não entregue à tristeza a autoridade de dizer quem você é ou de definir como Deus trata você. Em Cristo, fomos alcançados pela graça do Redentor e pertencemos ao Senhor. Você pode estar sofrendo e continuar sendo amado; pode estar chorando e continuar pertencendo a Ele. Reconheça o cuidado que já acompanha sua vida e confie ao SENHOR o futuro que você ainda não consegue enxergar.
Que Deus nos abençoe!
Rev. Thiago Mattos
Igreja Presbiteriana do Tarumã
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